terça-feira, novembro 06, 2007

RECORDAÇÕES!


Olha eu, tão pequeno e enrugado!Era um cachorro com pouco mais de dois meses quando conheci o meu dono pequeno.Esta fotografia foi tirada no primeiro dia que passámos juntos. Mas o que está ele a fazer?!!!!Até parece que me está a beliscar...Se calhar não acreditava que eu era verdadeiro e não de brincar como os outros cães de pelúcia que tinha lá em casa!

OS CÃES NA LITERATURA

POEMA DO CÃO AO ENTARDECER

Um cão no areal corria presto.
Presto corria o cão no areal deserto.

Era ao entardecer, e o cão corria presto
no areal deserto.

Corria em linha recta, presto,
presto,pela orla do mar.
pela orla do mar, em linha recta,
presto, o cão.

Era ao entardecer.
No areal as águas derramadas
nas angústias do mar
lambuzavam de espuma as patas automáticas
do cão que presto, presto, corria em linha recta
pela orla do mar.

Sem princípio nem fim, em linha recta,
pela orla hora espessa, peganhenta e húmida,
em que um resto de luz no espasmo da agonia
geme nas coisas e empasta-as como goma.
No espaço diluído, esfumado e cinzento,
corria presto o cão no areal deserto.
Corria em linha recta, presto,
presto,definindo uma forma movediça
que perfurava a névoa e prosseguia
pela orla do mar, em linha recta,
focinho levantado, olhos estáticos,
fixando o breve ponto onde se encontram
além de todo o longe
as rectas que se dizem paralelas.

Alternavam-se as patas na cadência,na cadência
ritmada do movimento presto,
deixando no areal as marcas do contacto.
Presto, presto.

Como se um desejo o chamasse, corria presto o cão
no areal deserto.
O ritmo sempre igual, a língua pendurada,
os olhos como brocas, furadores de distâncias.

Em seu último espasmo a luz enrodilhou
o cão, o mar, o céu, o próximo e o distante.
Era um suposto cão correndo presto, presto,
num suposto areal, realmente deserto,
por uma linha recta mais suposta
que o areal e o mar.
mas presto, presto, sempre presto, presto,
correndo o cão no areal deserto.

António Gedeão,Poemas póstumos,1984

INTERVALO PUBLICITÁRIO (ENQUANTO VOU FAZER O MEU CHICHI...)


OS CÃES NA LITERATURA

CÃO ATÓMICO

1.Este cão tem folhas nas orelhas,
Com quatro talos:
Mas o que este cão devia ter era calos,
E só tem olhos e ossos
E morrinha num dente!
Mas, meu Deus, este cão
Quase o diria meu irmão:
Parece gente!

2.Este cão é redondo. Está deitado,
Rosna com gengivas de uivo.
Dizem-me que foi lobo,
Mas perdeu a alcateia
Como os homens perderam a Razão,
Que hoje serve de osso ao cão
Escapou ao cogumelo nuclear.E por essa razão se foi deitar.


Poema de Vitorino Nemésio

OS CÃES VISTOS PELOS ARTISTAS

Frederick Morgan pintou este quadro.O menino está no banho e quer dar banho ao cachorro!Estes humanos!Lá porque gostam de tomar banho pensam que os cães também curtem a água e a espuma e os cheirinhos! A minha dona até tem shampô especial para cão, mas, sinceramente, eu não sou nenhuma peruca para ensaboar!Assim, quando ela diz, Davis, está na hora do banho, eu fujo logo a sete pés, não,a quatro patas! E ela tem de vir atrás de mim...e o meu pequeno dono ri-se porque, tal como o menino do quadro, ele também gosta da banhoca!!

TEREI SIDO MORDIDO POR UM VAMPIRO?!!!

Reparem bem no meu pescoço!!Estão a ver aquelas duas peladas de forma circular? O que é que isso vos parece? Será que numa noite de nevoeiro, enquanto os meus donos dormiam, um vampiro se acercou do meu pescoço indefeso, ferrando os dentes, sugando-me o meu precioso sangue?!Gluupp!!!Mas se até se diz que os Shar Pei até foram durante muito tempo preferidos para as lutas de cães porque as pregas de pele os protegiam mais das dentadas dos outros animais...!!Mas espera aí...um vampiro não é um animal, é uma criatura do outro mundo!!Um dia conto-vos a história das minhas duas peladas...tenham medo, tenham muito medo!

COMO SE DIZ CÃO EM VÁRIAS LÍNGUAS? AJUDEM-ME A COMPLETAR A LISTA!


Português - Cão
Inglês - Dog
Francês - Chien
Alemão - Hund
Espanhol - Perro
Italiano - Cane
Russo - Собака
Árabe - الكلب
Chinês - 狗

OS CÃES NA LITERATURA

CÃO

Cão passageiro, cão estrito,
cão rasteiro cor de luva amarela,
apara-lápis, fraldiqueiro,
cão liquefeito, cão estafado,
cão de gravata pendente,
cão de orelhas engomadas,
de remexido rabo ausente,
cão ululante, cão coruscante,
cão magro, tétrico, maldito,
a desfazer-se num ganido,
a refazer-se num latido,
cão disparado: cão aqui,
cão além, e sempre cão.
Cão marrado, preso a um fio de cheiro,
cão a esburgar o osso
essencial do dia a dia,
cão estouvado de alegria,
cão formal da poesia,
cão-soneto de ão-ão bem martelado,
cão moído de pancada
e condoído do dono,
cão: esfera do sono,
cão de pura invenção, cão pré-fabricado,
cão-espelho, cão-cinzeiro, cão-botija,
cão de olhos que afligem,
cão-problema...Sai depressa, ó cão, deste poema!

Alexandre O'Neill,Poesias Completas. 1951-1986Lisboa, INCM, 1990 (3ª ed.)